Um pouco sobre a BrazilJS 2017: a maior conferência JavaScript do Universo

“A maior conferência JavaScript do universo”. É assim que a BrazilJS se entitula e com todo o direito merece este título. Durante os dias 25 e 26 de agosto, Porto Alegre se transformou na capital mundial do JavaScript recebendo a 7ª edição da conferência.

Pessoas das mais diversas partes do Brasil e do mundo, participaram do “Woodstock do JavaScript”, como o mestre de cerimônias, Erick Krominski (@EKrominski), repórter do programa de TV Shark Tank e ex-CQC, carinhosamente apelidou.

“É a maior conferência JavaScript do mundo. É um evento sobre transformação, sobre empoderamento. E está nas mãos de vocês a transformação do futuro” – lembrou Erick.

O evento contou com a participação de diversas empresas referências na área de desenvolvimento de software, que aproveitaram a ocasião para conectarem-se com os participantes e mostrarem mais sobre os produtos e soluções desenvolvidas por elas. Empresas como Microsoft, Locaweb, Globo.com, Mozilla, VTEX, Rocket.chat, Umbler e WeDeploy foram algumas das presentes.

Um dos grandes trunfos da BrazilJS é conseguir reunir em um único lugar algumas das maiores mentes do desenvolvimento web atual. Palestrantes nacionais e internacionais (Estados Unidos, Canadá, Espanha, Itália e Finlândia) apresentaram nos dois dias de conferência conteúdos riquíssimos, que sem dúvida, agregou valor para todos os presentes.

A palestra que abriu o evento foi do André Staltz (@andrestaltz), desenvolvedor brasileiro que reside na Finlândia e que falou sobre um tema polêmico: O Fim da Internet.

Staltz apresentou dados mostrando que está ocorrendo uma mudança na forma como navegamos na internet. Segundo Staltz, essa mudança começou em 2014, quando Google e Facebook admitiram algumas derrotas em determinadas áreas, mas se fortaleceram em outras específicas. Um sinal dessa mudança, está em portais de notícia, por exemplo, que já têm a maior parte da audiência originada em links de Google e Facebook.

“O Google é responsável por 87% das buscas do mundo. E no Brasil esse número é ainda maior. E já não quer mais ser um player neutro, um catálogo de sites. Ele quer ser a fonte da informação. E o Zuckerberg diz que o futuro do Facebook é ter o controle sobre todas as coisas. Como será em 2025?”

Para Staltz isso fica ainda mais claro quando observamos as aquisições de empresas e startups feitas pelas duas gigantes da tecnologia. Google vem investindo em inteligência artificial para potencializar seu mecanismo de busca e em 2014 adquiriu a DeepMind, empresa que visa otimizar pesquisas usando inteligência artificial. Já o Facebook, com foco em conectar todas as pessoas do mundo e se tornar um cerne de comunicação, comprou Instagram, WhatsApp, Oculus VR, entre outros serviços de interação social.

Essa movimentação das grandes empresas de tecnologia apresenta preocupações, como a centralização de informações, o que pode gerar monopólios.

Por fim, Staltz afirma que para combatermos isso, temos que pensar desde já no futuro da internet e em como criar soluções descentralizadoras de uma “nova internet”. Um caminho que já está sendo desenvolvido com o uso de tecnologias como SSB, DAT e CJDNS.

“Nós já começamos. Estamos começando a construir essa internet.”

A segunda palestra do dia foi da Milene Lacerda (@milenevlacerda) com a palestra “Construindo PWAS utilizando VueJS”. A apresentação foi completamente técnica, onde a Milene mostrou os benefícios de se utilizar PWA (Progressive Web App) para a criação de aplicativos mais próximos de uma aplicação nativa.

PWA são experiências que combinam o melhor da Web e o melhor dos aplicativos. Conforme o usuário desenvolve uma relação com o aplicativo ao longo do tempo, ele se torna cada vez mais eficaz. Ele é carregado com rapidez, mesmo em redes instáveis, envia notificações push relevantes, tem um ícone na tela inicial e é carregado como uma experiência de tela inteira de alto nível.

Através de cases a palestrante mostrou que já é possível construir aplicações em PWA e reforçou a economia de tempo e recursos que a tecnologia entrega.

Após a apresentação da Milene, foi a vez do Diogo Cortiz, Pesquisador no Ceweb.br/W3C Brasil e Professor na PUC-SP, falar sobre “Web imersiva: oportunidades e desafios”. Um tema extremamente importante para empresas que pretendem inovar e entregar soluções de imersão de conteúdos mais relevantes.

Vídeos 360 graus, realidade aumentada, realidade virtual e investimento no avanço de tecnologias de processamento gráfico já são algumas das apostas para o mercado. Segundo Cortiz, este tipo de tecnologia tem um senso de engajamento muito grande. E bem implementado faz com que as pessoas tenham um sentido de presença, uma sensação de pertencimento e empatia.

Empresas como Google e Facebook apostam fortemente na realidade virtual e em experiências imersivas. Sendo papel de engenheiros, filósofos e profissionais de mídia ajudar a construir essa ponte entre o real e o virtual.

Encerrando a parte da manhã, aconteceu a primeira palestra internacional. Jeffrey Lembeck (@jefflembeck), dos Estados Unidos, mostrou de forma didática e intuitiva as etapas do registro de um pacote na NPM (Node Package Manager) até o seu uso nos computadores durante o processo de desenvolvimento de uma aplicação. Com imagens, animações e uma narrativa totalmente voltada para o RPG, Jeffrey não poupou explicações e mostrou passo a passo como esse caminho acontece.

Na sequência foi a vez de Isabella Silveira (@silveira_bells) falar sobre “Projetando Interfaces Inteligentes: Machine Learning como Ferramenta de Personalização”. A palestrante mostrou que até 2020 espera que existam cerca de 40.900 exabytes de dados na rede, apontando que se hoje já não temos programadores em número suficiente para analisar o volume de informações gerado, esse crescimento exponencial e infinito não nos deixa outra opção: teremos de recorrer mais e mais às máquinas para trabalharmos de forma mais rápida e eficiente.

Produtos e experiências digitais estão cada vez mais específicos e personalizados. Empresas como Spotify, Amazon e Netflix entende essa necessidade do mercado e utilizam de conceitos de machine learning para conectar melhor seus usuários com o produto. Machine learning dá ao computador a habilidade de aprender sem explicitamente programá-lo, permitindo que a máquina aprenda e se adeque as necessidades do usuário.

Para isso, é necessário que informações ricas sejam trabalhadas para tirar conclusões de uma grande quantidade de dados. Isabella aproveitou para citar alguns exemplos de aplicação do machine learning:

Soluções como aplicações de recomendação; descoberta de padrões de consumo e itens que um usuário vai gostar mais; classificação e categorização de dados para analisar; review de produtos; predição e olhar para o passado para ver o mais provável no futuro, como o comportamento do mercado de ações para identificar oscilações; reconhecimento de imagem para identificar o que ela representa e o que há nela.

A procura por profissionais de data science e empresas especializadas no assunto têm aquecido o mercado. “Machine learning está no nosso alcance. Personalização é algo que a gente já espera. A tendência é que se tornem cada vez mais acessíveis. E deve aumentar a procura por profissionais de data science. Machine learning revolucionará a tecnologia como a conhecemos” – disse Isabella.

Chegava então a hora de uma das palestras mais aguardadas do dia. Seu título? “Como um projeto JS Open Source se transformou em uma empresa de 60 milhões de reais”. Todos queriam ouvir o que Gabriel Engel (@gabriel_engel) fundador e CEO da Rocket.chat tinha para falar. Gabriel não poupou nas histórias e informações sobre a trajetória de criação da Rocket.chat. O empreendimento começou como uma nova funcionalidade para atender a necessidade de um dos clientes da sua empresa. Vendo que no mercado não haviam soluções que atende-se o problema, Gabriel, junto com uma equipe de desenvolvedores, decidiram criar sua própria solução. Assim nasceu a startup que tem como objetivo oferecer uma plataforma de chat open source similar ao Slack.

A visão de Gabriel é tornar a Rocket.chat no WordPress dos chats. Onde qualquer pessoa, empresa ou organização será capaz de baixar uma versão da plataforma e adaptar às suas necessidades. É uma plano ambicioso mas que Gabriel enxerga como possível principalmente por contar com a contribuição da comunidade para disseminar a startup e tornar o produto ainda melhor.

O segundo e último dia da BrazilJS começou com a palestra de Jem Young (@JemYoung), engenheiro de software da Netflix. Jem trouxe à tona temas envolvendo a forma como desenvolvedores pensam e criam softwares, alertando para o excesso de tempo gasto lendo e compreendendo códigos mal feitos.

“Quando você está programando, não gosta de interrupção porque aquele código está todo na nossa cabeça. E os códigos que lemos muitas vezes são de outras pessoas. Se não entendemos, isso é bem ruim. E se for o nosso próprio código, nos sentimos tolos.”

Para Jem, existem passos que podem ajudar o processo de desenvolvimento, como: a nomeação de coisas apropriadamente; simplificar as coisas sempre que possível; adicionar comentários ao código; ser consistente; entender as ferramentas utilizadas no dia a dia; e entender o custo das coisas e como elas podem influenciar no processo de codificação.

“Não importa a ferramenta, tecnologia ou conceitos que você utiliza, desde que você entenda como funciona.”

Durante toda a conferência, vários palestrantes falaram sobre a importância de desenvolvedores e empresas criarem soluções de valor para clientes e sociedade. O palestrante Luigi Delyer (@luiguild) reforçou o assunto falando sobre “Map Visualization, Iot E Big Data. Transformando Informação em Valor, Latitude e Longitude”.

Luigi apresentou o GIS, Sistema de Informação Geográfica, e falou em como “apenas colocar um pontinho no telhado do cliente” em um mapa é praticamente desconsiderar uma série de possibilidades.

“O pontinho no telhado só tá ocupando um lugar no site. Pesquisas mostram que o usuário vai lá embaixo onde está o endereço e copia para o celular. O uso de mapas pode entregar muito mais aos clientes”

O desenvolvedor apresentou diversos cases, entre eles, a possibilidade de medir a qualidade da rede de telefonia móvel e internet, tudo isso por meio da mineração de dados para transformar em informação que ajude empresas a atingir seus objetivos. O palestrante também demonstrou como apresentar aos clientes gráficos gerados a partir de Big Data aplicada ao mapa.

Um dos exemplos foi a criação de um mapa para uma estação de energia eólica que fica em Palm Springs, Califórnia, onde que por meio de uma API é possível manipular as hélices para ver as condições do vento e mostrar essa interação em tempo real.

Progressive Web App foi um tema muito discutido durante a BrazilJS. Diversos palestrantes mostraram o potencial da tecnologia e como ela está crescendo para mudar o futuro das aplicações web e mobile.

Talvez quem melhor mostrou os reais benefícios do uso de PWA durante a conferência foi o palestrante Christiano Milfont (@cmilfont), com a palestra “Progressive Web App já é possível?”

Christiano demonstrou por meio de uma aplicação real (https://beerswarm.com/) como o processo de criação de uma PWA não precisa ser algo complexo e que com pouco tempo é possível criar funcionalidades que utilizem recursos como posição geolocalizada do usuário, mapas, rotas, acesso a câmera, funcionamento offline e atualizações periodicamente.

O custo de manter apps nativos para plataformas como Android e iOS é alto comparado com os custos de criação de uma PWA. Empresas tendem a ter em sua equipe times diferentes para cada uma das plataformas que precisam atender. Com PWA, esse esforço é reduzido drasticamente, dando liberdade para as empresas pensarem no crescimento do seu produto.

Para Milfont, Google e Apple são as principais interessadas na difusão de PWA e discorreu sobre o fim dos apps como conhecemos hoje. Mostrou, por exemplo, que 60% dos apps já feitos nunca foram baixados. E que isso só vai aumentar.

Para demonstrar todo o poder do JavaScript, não por menos, as duas melhores palestras do dia foram deixadas para o final da conferência. Andre Alves Garzia (@soapdog) e Guilherme Souza (@_Gui_Souza), levaram para o Centro de Eventos do Barra Shopping, dois projetos que levantou o ânimo de todos os presentes.

Garzia, super animado, apresentou ao vivo como utilizar JavaScript em uma máquina de fabricação caseira para produzir drinks. Com poucos linhas de código e um hardware com acesso wifi, Garzia demonstrou que JavaScript é muito mais que uma linguagem para a web.

Mas o melhor ainda ficaria para o fim. Guilherme Souza traria para o evento o clímax que faltava. Com a palestra “Js Gives You Superpowers, Use Them”, Guilherme exaltou que hoje a comunidade JavaScript é a mais poderosa dentre as comunidades de código aberto. “Isso dá ao desenvolvedor JavaScript um alto poder de prototipagem, criação e empreendedorismo. Até a Nasa usa JavaScript”, disse o palestrante.

Trazendo emoção em seu discurso, Guilherme contou sua trajetória como desenvolvedor e como a sua participação na BrazilJS de 2013 havia mudado sua vida. Com 24 anos, o jovem desenvolvedor demonstrou maturidade ao falar de assuntos como autoconhecimento, motivação e resolver problemas do mundo real.

O palestrante, então, revelou para a plateia o projeto que vinha trabalhando há pouco mais de 2 anos. Uma prótese ativa que desenvolveu para quem perdeu um dos braços. Programada com JavaScript e construída com peças feitas a partir de impressão 3D, a prótese conceito foi feita na sala da casa dele durante dois anos.

Aplaudido de pé, com um choro que emocionou o público, Guilherme finalizou motivando os presentes a começarem a trabalhar em coisas que façam a vida das pessoas melhor. “A BrazilJS me mudou como pessoa!”

Assim terminava mais uma edição da maior conferência JavaScript do universo.